Ode ao Prelúdio


Perdemos a mão enquanto segurávamos o tchan
24/09/2013, 6:38 PM
Filed under: Amigos, amor, Cartas, Família, lembretes, Pensando sobre

É, eu acho que perdemos a mão no é o tchan, ou um pouco antes disso.
Eu não sabia o que acontecia naquela época, e no meu caso, ver meninas descerem na boquinha da garrafa era apenas uma brincadeira, e sinceramente, pra mim e pra muitas outras crianças era realmente uma brincadeira. Só que daí alguém resolveu introduzir nas mentes das crianças o que aquilo de forma bruta e insensível e daí meus amigos, acho que nesse momento perdemos a mão.

Uma criança vê inocência em tudo, para uma criança, adultos sorrindo e dançando é uma alegria sem igual, pelo menos pra mim era assim, ver meus pais, tios e primos mais velhos dançando, era na maioria das vezes os momentos mais felizes na minha infância. Eu mesmo não ligava nenhuma daqueles sorrisos a qualquer tipo de bebida ou “facilitador de sorrisos” mas não sei porque, alguém resolveu inventar que criança precisava ser envolvida nos pensamentos adultos de forma “adulta”…

Daí na minha adolescência, quase tudo via com malicia e desde então parecia que aquela visão sobre as coisas eram irreversíveis.

Por diversas vezes ouvi amigos dizendo que a música não influência, que dançaram na infância e não é por isso que caíram em decadência, e juro pra vocês, pensei demais sobre isso até lembrar que até mesmo eu já dancei um “segura o tchan” em uma festa de aniversário na casa da minha mãe e realmente em alguns pontos não tinha como não concordar com eles, a música não influenciou nada, mas ai eu pensei na base, no cuidado dos pais envolto a toda essa nebulosa liberdade de expressão musical e vi pais e mães dedicados para que os filhos fossem alguém, atrás de toda “liberdade de expressão” haviam os puxões de orelhas, chineladas ou apenas palavras de incentivo para que os filhos não desviassem do caminho preparado pra eles, o futuro.

Hoje vejo que as músicas que ocupam os lugares de “dança da garrafa” são muito mais profundas em seus contextos sexuais e também mais explícitas e desnecessariamente cultuam uma sexualidade perturbadora, sem amor, sem cuidado, até mesmo a ideia de fazer algo ser engraçado, divertido e claro ambiguidade não existe ou pelo menos pouco se preocupam, são mensagens diretas como um grande “tira a roupa e deita ali” e só me vem a cabeça que a musica que sempre foi algo tão sentimental pela primeira vez na vida aos meus olhos e ouvidos consegue ser insensível.

Junto com essa “revolução musical” ao olhar para alguns pais, já não enxergo o cuidado que via nos pais da geração do “é o tchan” que mesmo tratando como música engraçada, tratava os filhos como futuros adultos onde podiam brincar, só não deviam esquecer das obrigações.

Quanto o que “não deveria ser algo normal” tem se introduzido em nossas vidas sem notar? Quanto temos nos preocupado com o que ouvimos, lemos, sentimos ou pensamos? Temos dedicado tempo a raciocinar sobre nossos atos ou estamos deixando o vento nos levar?
Quanto a música, quero deixar claro que não acho que devemos introduzir sexo de forma engraçada ou ambígua nas músicas para ficar menos pesado, mas isso é o que eu acho sobre a música e por mais que não pareça, meu foco aqui não é a música e sim o tempo que temos dedicado para pensar nos resultados do que consumimos hoje, seja música, comida, tv, sejam conversas, revistas, internet, seja o que for, minha maior questão é, quanto tempo temos dedicado pra analisar o que entra em nossas mentes e querendo ou não nos compõe se não damos a atenção devida?

A verdade é que gosto tem pra todo mundo, não somos obrigados a consumir nada que não queremos, certo? Todos realmente tem essa opção? Já parou pra pensar o quanto os movimentos artísticos conseguem penetrar em algumas regiões sem ajuda da mídia e mercado fonográfico? Já parou também pra pensar o quanto pode ser caro consumir coisas diferentes daquelas que o meio em que vivemos promove e quando é barato não chega até os ouvidos das pessoas pois ao contrário da “mídia pra grande massa” não há o mesmo investimento?

O que te faz procurar o novo? Você procura o Novo ou apenas se informa através da timeline do facebook ou outras redes sociais onde quase sempre o conteúdo é tendencioso pois a intenção é essa mesmo? Qual foi a última vez que pesquisou sobre um assunto? Qual foi a última vez que ao invés de se indignar com o que alguém disse sobre algo, procurou saber sobre o que é aquele algo?

Temos criado ódio sobre temas, coisas e pessoas que algumas pessoas falam, porque acreditamos que a pessoa que disse tem conhecimento sobre o assunto e talvez por preguiça, raiva ou coisa do tipo, nos mantemos no nível raso, e intolerante, sem graça nos conformando sobre tudo.

Uma vez ouvi um cara dizer “a verdade continua sendo verdade na boca do diabo” e me perguntei, temos procurado a verdade ou nos satisfazendo com o que dizem?

Infelizmente sinto que perdemos a mão entre um segura/amarra o tchan e outro e o problema não é deles, não é de quem faz a música ou canta a música, não é de quem dança ou quem fez os passos, foi divertido, sem dúvida foi divertido, mas e aí? Vamos continuar dançando sem parar até que estejamos tão tão tão tão quadradinhos que perceberemos(ou não) estar dentro de uma caixa? Nosso dia a dia tem sido tão corrido, estressante e temos cada vez menos tempo pra viver que buscamos o entretenimento até mesmo quando deveríamos sentar e fazer a lição de casa? Só que agora, não tem mamãe e papai, vovô e vovó, nem titio ou titia pra nos dizer o que fazer e mesmo que tivéssemos, já estamos grandes demais pra decidir sozinhos nossos caminhos.

Nos dedicaremos a estudar a fundo ou continuaremos nos aprofundando em discussões apenas tendo conhecimento do resumo lido na internet?

Danilo Tavares

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